Além do Sol Trinity é a única que viu o sol, ela não pode morrer. Ela não morre, eu não permito. Minha alma se chama Trinity. Minha essência se chama Romily. E meu nome, estranho, é Vida.



sábado, mayo 03, 2008 :::

Das coisas que precisam sempre ser feitas




Nada como um feriado chuvoso. Quando me vejo assim, sentadinha na cama, escrevendo um texto sem nenhuma pretensão de utilidade, esquentando comida congelada, com um incenso aceso e uma musiquinha de fundo que não briga com o barulho da chuva, eu quase chego a desejar que todos os feriados fossem de chuva e frio. Sim, porque não basta que o feriado seja frio ou nublado. Apenas frio e apenas nublado, ainda é possível aceitar um convite pra um cinema, arriscar descer para o litoral pra ver se o não rola um mormaço, se jogar numa balada, ver uma peça de teatro ou se perder numa exposição por aí. Não, assim o feriado se vai numa tarde só no centro da cidade. E se tiver sol é pior ainda, se não se consegue ir à praia, cada minuto a mais na cama parece um atentado contra a moral e os bons costumes: a sensação de culpa por ter passado o sábado de sol todinho na cama é praticamente infinita.

Agora, vejam só. Estou eu cá, fofinha, limpinha e com o sorriso presunçoso de quem foi para a academia numa ponte de feriado. Sim, mesmo debaixo das cobertas, não fazendo o que eu devia (algo como estudar, lavar a roupa, limpar a casa, fazer comida, ir ao supermercado, imprimindo a declaração de IR) ou poderia (ir na locadora, no cinema, no teatro ou no Centro Cultural) estar fazendo, eu me sinto realmente muito bem e cumpridora dos meus deveres.

Dez horas depois de iniciada a escrita deste texto, e quatro horas dormidas depois, continuo gostando de feriados chuvosos, mas não posso deixar de pensar nas coisas que precisam ser feitas. E, num reflexo pseudo-filosófico, no porquê de elas precisarem serem feitas. É, de alguma forma, mais um retorno àquela antiga questão de "por que mesmo eu não posso ser feliz levando uma vidinha de granja?".

Sim, porque, pense comigo, não seria bem legal ter quatro dias de absolutamente porra nenhuma pra fazer? Sem uma lista imensa de coisas para pensar, textos para escrever, fotos para editar, conteúdo programático de concurso público, lista de vestibular, projetos de pesquisa, roupa pra lavare outro milhão de coisas que eu, às vezes desconfio que, inventei para ter que fazer. Será que eu realmente não poderia ser feliz com o meu emprego público garantido para o "resto da vida", com um dormir-acordar-comer-dormir-acordar-comer eterno?

Não. O mais irritante é que não. Eu tinha que inventar uma porra de um ideal, uma perseguição idiota ao que eu quero, eu tinha que acreditar que acredito em algumas coisas, tinha que ficar buscando um sentido para a vida. E aí, o que antes era o próprio paraíso ficar horas fazendo nada, torna-se algo parecido com culpa, mas que não é culpa, é consciência mesmo do tempo que se foi e das coisas que não se fez. E tudo viraria um imenso caldo enlouquecedor se eu desse ouvidos à todas as pessoas que não só não entendem minha busca como não entendem (e se acham no direito de ME questionar isso) a forma como eu busco.

Mas, calma, tudo passa ou não passa. São três horas da manhã, e já se foi metade do feriado. Emputecimento não vai parar a chuva nem fazer chover mais. Adiciono preceitos budistas à lista de coisas a aprender sobre o mundo e tudo ficará bem. No fundo eu sei que posso ser feliz não fazendo as coisas que eu deveria fazer, desde que eu tenha que fazê-las. E sei que posso ser feliz fazendo porque quero e não porque tenho que fazer. E sei que posso ser feliz não fazendo exatamente pelo mesmo motivo.

Porque a felicidade é uma possibilidade. Ou deveria ser. Ou não.

::: posted by Trinity at 03:41 Comments:



jueves, mayo 01, 2008 :::

Sonhos




Os sonhos são como as pessoas: envelhecem. E, como as pessoas, ficam mais arraigados em suas opiniões, mais teimosos e cheios de manias. Começam por achar que as coisas deviam ser sempre como sempre foram, que antigamente as coisas eram mais fáceis, melhores, mais justas, que tecnologias e "novidades" ou não funcionam, ou torna mais complicado ou deixa tudo ainda mais difícil. E, como se não bastasse, também como os humanos, só quem convive com sonhos idosos, sabe a barra que é e sabe o medo que se tem de um dia os ver morrendo (mesmo sabendo que isso é, no caso dos sonhos, apenas um dos caminhos possíveis). Acreditem em mim, eu convivo com um há 10 anos.

O meu nasceu de uma gestação longa e turbulenta. Viu, ainda na infância, irmãos seus seguirem outros caminhos. Alguns, um pouco mais velhos, cresceram e, de certa forma, juntaram-se a ele e se tornaram um só. Outros, quase da mesma idade que ele, de certa forma se realizaram e o tornaram mais forte. Outros, mais velhos e mais novos morreram antes mesmo de terem forma. E ainda há os que são ainda muito pequeninos e se inspiram no irmão mais velho, naquele grande irmão que sobrevive, que luta e grita e se faz ouvir.

Este sonho que me guia tem suas manias: quer ser, quer ser por aquele caminho, e quer ser por aquele caminho e daquele jeito. De velho que se tornou, cada dia me custa mais fazer com que escute as alternativas. Exige que eu carregue no peito a camiseta com a estampa de uma faculdade com quase um século de existência, de uma das profissões mais antigas do mundo. Mais: inventa ainda que tenho que segui-lo sem me perder de mim mesma, mantendo meus escrúpulos e minhas opiniões nem sempre tão coesas. Quer que as coisas sejam como sempre foram, quando bastava haver uma prova para que eu soubesse das respostas todas. Pelo menos, ele ainda não se pronuncia contra a informática. Meu sonho pode ser velhinho mas é bem moderninho.

Mas o pior, a mais irritante característica que ele possui, depois da infinita paciência, é a de me fazer sempre, por acreditar, concordar com ele. E segui-lo.

::: posted by Trinity at 04:11 Comments:






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