|
|
|
|
|
Além do Sol
Trinity é a única que viu o sol, ela não pode morrer. Ela não morre, eu não permito.
Minha alma se chama Trinity. Minha essência se chama Romily.
E meu nome, estranho, é Vida.
|
|
|
|
|
viernes, abril 25, 2008 :::
Para a minha única irmã
Bia querida,
Sendo bem sincera, não sei se entendi muito bem o scrap em capítulos que vc me deixou. Mas, como eu sou uma garota esperta, não precisaria daquele texto todo para saber que vc não está bem e que escreveu aquilo tudo aos prantos. E bota pranto nisso. Não o farei de forma tão diferente. Então, para te facilitar, vou dizer tudo o que eu entendo da coisa toda e vc me diz se entendi tudo errado e me corrige, ok?
Do começo, porque tenho que começar de algum lugar. O fim de semana na praia foi bem interessante. Com partes divertidas, pacatas e muito aprendizado. Não fosse a sua ausência, poderia dizer, sem erro, que foi a primeira vez que reuniu-se toda a família do meu avô. Não me lembro nunca de ter passado quase três dias com o tio, a Dênia, meu pai e meu avô, no mesmo teto, fazendo o mesmo programa. Minha intenção era colocar a foto aqui, mas como a Denia ainda não me mandou, não vai dar. O que eu quero dizer com tudo isso é apenas uma reflexão: há mais de 50 anos, o jovem José Torregrosa desembarcava no Porto de Santos, completamente sozinho e sem nenhum tostão no bolso. Deixou para trás sua pátria e sua família, sem saber se um dia voltaria, sem saber se um dia os veria novamente. Deixou na Espanha a irmã que protegera e amara a vida toda. Brigou com muita gente, trabalhou muito, casou, enviuvou, foi pai, avô e sempre, sempre, teimoso. Fez tudo do jeito dele, mesmo todo mundo dizendo que não ou que sim. Fez o que achou que tinha que fazer. Acertou em muita coisa, errou em muitas tantas outras. Mais de meio século depois, ele estava outra vez, próximo ao mar, e poderia (se não tivesse chovido tanto) mostrar-lhe o que construiu: uma família. Nem perfeita, nem padrão, apenas uma família.
Se eu estivesse à altura de fazer um diagnóstico, eu diria que seu maior legado foi a teimosia. E que, absolutamente nenhum de seus descendentes, escapou a tal legado. Uma pena vc não estar lá para testemunhar tal coisa. Somos uma família de teimosos irredutíveis. Até a pequena Maria Julia, com menos de dois anos de idade, tem das suas.
Antes que eu esqueça, tenho que deixar aqui registrado que vc não estar lá não implicou em que vc estivesse ausente. Quero dizer, nas quase mesmas palavras, vc esteve lá o tempo todo, apenas não pôde se defender (o que eu espero ter feito a contento, pelo menos, fiz o que pude). É inegável que todos se preocupam com a sua situação. O tio, a Denia, eu, a tia Juanita. Meu pai é parte, não pode opinar. Meu avô, bom, meu avô já não é o mesmo velhinho falante e inquieto que nos acostumos a reconhecer. Já é quase um anicião que muito vê, muto ouve, muito percebe e muito pouco fala.
Vamos então à sua contenda. A minha posição se baseia em duas opiniões, base de argumentação todas as vezes que alguém quer falar do assunto: 1. Isso tudo é absurdamente ridículo e infantil. 2. As pessoas estão acostumadas - aliás, muito mal acotumadas - a criticar tudo o que vc faz, e isso criou um vício coletivo, do qual vc faz parte também, de tudo o que vc faz está errado. Desta vez, vc PODE estar certa, e eu estarei te apoianda até onde eu puder. Isso é tudo o que tenho dito a quem me pergunta "e a Bia, hein?".
O caso é que o que eu tenho dito é apenas um reflexo do que penso. Não vem a ser exatamente meus pensamentos nem exatamente minha opinião. Sim, porque, sinceramente, não entendo exatamente o que se passa. Essa sua briga com meu pai se me aparece como um prisma onde cada pessoa só vê, e só sabe me falar, de uma cor. Eu só gostaria de entender por que raios vc, o Ezequiel e meu pai não sentam, conversam e resolvem isso tudo como adultos? Pelo-amor-de-Deus!!! E por falar em Deus não venha me dizer que "Deus sabe o que faz", "só Deus te entende" ou "deixo nas mãos de Deus". Ainda que eu acreditasse piamente na existência de Deus e seguisse os preceitos espíritas, vamos combinar que se fosse pra Ele ter que resolver tudo, nem vc, nem ninguém, precisava ter reencarnado. Então irmãzinha, sinto te dizer, que isso tudo é um problema seu, e não de Deus, tá?
Isto posto, repito mais uma vez que eu estou do seu lado (ainda que eu concorde com o meu pai sobre certas coisas). Sim, porque acredito que todas as pessoas merecem crédito e quantas chances forem necessárias para fazerem a coisa certa. Entenda-se "coisa certa" como aquilo que te "faz feliz". E registre-se que estar a seu lado não tem nada a ver com não dizer o que eu penso. São coisas diferentes. Ou seja, se vc for casar amanhã, farei de tudo para que vc tenha um casamento tão legal quanto os das minhas melhores amigas. Se vc resolver sair de casa amanhã, pode vir para a minha kit até vc achar outro lugar. Se vc for pular do alto de um prédio, eu te tiro de lá e depois te encho de porrada pra vc largar de ser tonta. Eu só quero que vc fique bem. Quero falar com vc pelo telefone e não ter a sensação de que vc estava chorando ou vai começar a chorar logo que desligar. Quero te ver e ver alguém equilibrado (no sentido mais amplo da palavra), nutrido, descansado, feliz. Eu só quero sentir que vc está levando a vida da forma como vc quer e não, que a vida está te levando para onde vc não quer. Entendeu?
Por falar em entender, há algo nisso tudo que não sei se vc entendeu. Se já tinha entendido, peço que me desculpe pela repetição. O meu pai só quer te ver bem e feliz. Eu uso o pronome possessivo na primeira pessoa do singular, mas ele o é na primeira do plural e na segunda do singular. O meu pai, é o nosso e também o TEU PAI. Se ele disse pra vc não sei, mas pra mim ele deixou bem claro que o único motivo pelo qual ele não gosta do seu namorado é porque vc não parece alguém feliz e independente. Ele não é contra você se CASAR com o moço: ele é contra você DEPENDER dele. São coisas diferentes. E, sinto dizer, se a coisa se tornou pessoal, foi apenas porque o Ezequiel não deixou transparecer, até agora, que é alguém que está ao seu lado - nem atrás, nem na frente, nem carregando, nem sendo carregado - apenas ao seu lado.
Tente por um minuto imaginar que vc tem uma filha. Agora imagine que vc vê - de fora, apenas de fora - levando a vida que vc leva: a hora que vc acorda, a hora que vc dorme, o tempo que vc não tem livre, a desabalada correria que vc escolheu pra você desde que entrou no Centro Espírita de Poá. Será que vc veria alguém que corre ou alguém que foge? Será que vc não acabaria fazendo algo tão bobo quanto o meu pai vem fazendo? Puxe pela memória (e faça um paralelo, se quiser): meu pai, que é tão ou mais espírita que você, não gosta do CEAE Poá. Vive inventando coisas sobre a energia de lá e coisas assim. Será mesmo que lá virou um lugar pior só porque agora você está lá? Ou será que o único defeito de lá é ter se tornado um lugar onde vc se esconde de você mesma? Ou ainda, será que o único crime que aquele centro cometeu foi ter tirado você do meu pai?
Será que não acontece a mesma coisa com o seu(s) namorado(s)?
Não sei, simplesmente não sei. Eu só quero apenas que vc se acerte com o meu pai e que possamos, quem sabe um dia, mais uma vez, brincar de família de novo. Quem sabe então você compreenda de uma vez por todas, que nós não somos e provavelmente nunca seremos uma família unida, a família unida que vc imagina. Nós somos apenas, o que somos: uma família que mescla o sangue quente dos espanhóis com o sentimento de máfia dos italianos. (Eu e você ainda temperamos isso com uma falsa calma mineira e o sangue mais quente ainda dos pernambucanos). Vivemos separados e estamos juntos quando é preciso. Como agora, no que talvez seja, uma das últimas visitas da única irmã do meu avô, que já não tem mais 75 anos como há dez anos.
Desejo para nós esta sorte: de podemos estar nós duas, como únicas irmãs, de frente ao mar, prestando contas aos deuses de toda uma vida vivida de acordo com as nossas próprias escolhas.
Um grande abraço e obrigada pelo feliz aniversário. Mesmo estando longe, eu estive com você e esperei aqueles cartões ridículos e sentimentalóides de aniversário que vc sempre me escreve.
Trinity.
::: posted by
Trinity at 02:10
Comments:
jueves, abril 17, 2008 :::
Aos 27
Afeição. A palavra é afeição. E agradecimento,claro. Afeição foi o sentimento exato que me percorreu, como um banho morno, o ser todo enquanto eu estava ali, no bar, "comemorando" meu aniversário. De tal forma, que quse atendi porque as pessoas fazem festa de aniversário. Quase. Ainda assim, confesso que se, este ano, marquei tal evento, foi mais pelos outros que por mim. Queria ter ido ao cinema. Ainda bem que não fui: aquele bar, meus amigos, a sensação de afeição na alma, uma indescritível paz e confiança. Que filme me daria isso?
Arrisco dizer que todos que estavam ali me são, talvez inconcientemente, muito caros. Tão fato quanto dizer que nem todos os meus amigos mais queridos estavam presente e que, sim, senti falta de alguém que talvez estragasse a festa, é dizer que não havia ninguém que eu não quisesse que estivesse. Um fantasma foi debandado daquele lugar. Agradeço. Aos deuses, na falta de alguém melhor.
A outra palavra é expectativa. E medo. E dúvida. O que mais vem agora? A vida será mesmo só isso? Tenho eu o direito de pedir mais?
Tenho eu o direito de me contentar com menos? 27 anos. A solidão, até quando? O virtual, alucinação?
Por fim, eu diria, pra variar, esperança. E uma leve desconfiança de que eu posso fazer mais e melhor.
::: posted by
Trinity at 02:07
Comments:
|
|
|
|