|
|
|
|
|
Além do Sol
Trinity é a única que viu o sol, ela não pode morrer. Ela não morre, eu não permito.
Minha alma se chama Trinity. Minha essência se chama Romily.
E meu nome, estranho, é Vida.
|
|
|
|
|
sábado, enero 27, 2007 :::
Post passado sobre coisas que nunca passarão completamente...
Do Fim
A morte não era uma opcão. Por isso se podia adiar a visita para quando o carro tivesse pronto; podia deixar para quando a chuva passasse, para depois do plantão, a ida ao hospital. Podia até nem se ir ao hospital: a cura é certa e a morte aos 25 não é uma opcão.
Claro que não era isso exatamente o que eu pensava no meu eterno adiar da ida a Mogi das Cruzes. Quando não se pensa nisso, simplesmente não se pensa. Eu ia mesmo passar lá quando o carro ficasse pronto, e estaria presente sempre no aniversário das criancas, se não no dia, pelo menos no mês. Talvez me acuse de mentirosa a memória que não atesta minha presenca, mas eu estive lá sim no último aniversario, e me lembro de tê-la vista tão magrinha que até pensei que ela fosse morrer. Mas era um morrer como quem morre de amor, morre de tristeza, de saudade ou de desilusão. Nunca de leucemia.
Minha crenca era verdadeira. Tão verdadeira que eu poderia chamá-la de conhecimento: ela sairia novamente do hospital, ficaria boa, como sempre ficou, eu iria vê-la finalmente depois de meses prometidos em vão e nós conversaríamos como velhas amigas. Talvez eu fosse embora triste por vê-la tão longe do sonho que compartilháramos há anos. Talvez eu fosse embora, como das outras vezes, revoltada por não ver nela a felicidade radiante da juventude que eu ostentava e que acreditava que, pelo menos os meus amigos deveriam ter. Saíria revoltada, ligaria indignada para a amiga em comum, com quem brigaria, como sempre, e eu diria por fim que não voltaria para lá tão cedo pois eu não aguentava ver minha amiga infeliz por escolha própria.
Nem sei como a idéia bem idiota de que se afastar era sempre a melhor maneira de ajudar se instalou em mim. Não passou pela minha cabeca que talvez ela pudesse estar sendo feliz, e o seria mais se suas amigas estivessem mais perto que apenas telefonando. Muito menos pensei que talvez eu pudesse compartilhar não só minhas experiências mas também minha alegria. Tudo isso só me ocorre agora que não adianta mais.
Mas, e isso é o mais absurdo (por ser e por não ser), a morte não era uma opcão. Por isso eu fui para a praia sossegada, por isso dormi no dia em que voltei, por isso perdi a hora naquele dia: porque eu tinha a semana (a vida) toda para visitá-la.
Quando recebi a mensagem com aquelas três letras, U/T/I, eu comecei a entender. Mas no dia seguinte, já me encontrava no estado de crenca justificada (em nada) na lei de que amigo da gente não morre. Aliás, lei tácita que todos sabemos desde que nascemos: os amigos da gente ou morrem com a gente ou só morrem depois da gente. Antes, nunca. Que isso traga quase uma impossibilidade de morte a todo ser que tem amigos é um problema que não cabe a mim resolver, não fui eu quem fiz a lei, ela já existia quando eu nasci.
Não era uma opcão. Que eu tivesse perdido a razão, o senso de direção e que tivesse ligado e preocupado meus melhores amigos com a história das três letras, é compreensível: o desespero atinge primeiro os videntes. Mas isso não significava, ou não deveria significar, o que obviamente estava significando.
O significado tomou forma definitiva abrupta e definitivamente. Então meu amigo, marido dela - e eu me lembro, porque agora tudo será apenas lembranca, da piada recorrente, ¿como chama o filho do seu melhor amigo com sua melhor amiga? - passou a noite com ela no leito,a viu sangrar, segurou a mão dela no caminho até a UTI de verdade, e menos de duas horas depois, no pouco tempo em que se afastara, o pai dela veio dizer-lhe que ela faleceu. É isso. Duas horas depois eu liguei do trem, confiante que estava, só pra saber se ela tinha sido transferida. E ele disse: Triny, a Vanessa morreu.
Não me lembro bem das frases ditas antes, porque só essa ficou. A morte não era mesmo uma opcão: era fato. O depois foi inerente e incontrolável. As lágrimas, o velório, as lembrancas, o enterro. Um amigo manteve o outro em pé. Não sei se eu o fiz por alguém, mas as pernas entraram em luto e não fosse o Isaac - que há muito tempo não vejo e que não mais vi - eu não saberia de mim.
Então é isso. Numa noite ela estava no hospital, noutra no caixão. Numa noite eu aceitava uma lei forjada antes de eu nascer, noutra eu me lembrava que ela havia sido revogada três anos depois com a morte da minha mãe, que sabidamente tinha amigos e, 25 anos.Resta a pergunta o que acontece depois da morte com os que vivem.
Depois da morte, resta o ano novo com a vida toda pela frente. Uma vida em que a morte está no horizonte, que não se deve nem tê-la nem perdê-la de vista. Onde as possibilidades são infinitas, mas são pra agora. Onde os sonhos são tudo o que resta e tudo pelo quê vale a pena lutar. Além dos amigos, claro.
Um 2007 para todos nós.
::: posted by
Trinity at 18:36
Comments:
|
|
|
|