Além do Sol Trinity é a única que viu o sol, ela não pode morrer. Ela não morre, eu não permito. Minha alma se chama Trinity. Minha essência se chama Romily. E meu nome, estranho, é Vida.



domingo, noviembre 13, 2005 :::

CENAS REPETIDAS DE UM FILME INÉDITO



Eu poderia dizer muita coisa. Poderia narrar o surreal da última quarta-feira, do último sábado, do presente domingo. Poderia dar forma aos inúmeros textos que se formaram na minha mente enquanto eu caminhava pra casa na manhã (tarde) de hoje. Poderia mesmo. Acho até que gostaria, mas sabe, seria tudo tão repetido, a mesma ladainha, a mesma coisa, pessoas, personagens, cenas, tudo meio parecido, embora absurdamente diferente, novo, incrível.

O filme é outro,os personagens, os mesmos de outros. As cenas, nunca dantes vistas, causam aquela sensação de familiaridade, de lar, de estar em casa. E eu, eu pra variar, sou de novo outra, outro ser, outra sensação, outra emoção, outro ato. E as palavras, bom, as palavras são repetidas, até as que nunca foram ditas.

E de tudo e tanto que eu poderia dizer, Los Hermanos já cantou. E é exatamente isso.

CONDICIONALl



Los Hermanos
Composição: Rodrigo Amarante


Quis nunca te perder, tanto que demais, via em tudo céu, fiz de tudo cais, dei-te pra ancorar, doces deletérios

E quis ter os pés no chão, tanto eu abri mão, que hoje eu entendi, sonho não se dá, é botão de flor. O sabor de fel é de cortar.

Eu sei é um doce te amar
O amargo é querer-te pra mim
O que eu preciso é lembrar e ver
Antes de te ter e de ser teu, muito bem


Quis nunca te ganhar, tanto que forjei asas nos teus pés, ondas pra levar deixo desvendar todos os mistérios

Sei que tanto te soltei, que você me quis em todo o lugar, li em cada olhar quanta intenção... Eu vivia preso

Eu sei é um doce te amar
O amargo é querer-te pra mim
O que eu preciso é lembrar e ver
Antes de te ter e de ser teu
O QUE EU QUERIA O QUE EU FAZIA O QUE MAIS?
E ALGUMA COISA A GENTE TEM QUE AMAR
MAS O QUE EU NÃO SEI MAIS

Os dias que eu me vejo só são dias
Que eu me encontro mais e mesmo assim
Eu sei também existe alguém pra me libertar


::: posted by Romy Trinity at 21:28 Comments:



post de 08.11.05

A PAUSA DO REAL



Hoje a mãe do meu irmão morreu. E eu não sei o que estou sentindo porque eu tenho a impressão que não estou sentindo nada. O que eu posso realmente fazer? Pelo meu irmão, principalmente, o que eu posso REALMENTE fazer? Nada. Quanto à morte, eu não posso fazer nada. Queria estar lá, viajando com ele, abraçando ele na viajem rumo ao velório da própria mãe. Mas eu estou aqui. Por que? Por que eu não me mexo? Por que eu só saberei o que deveria ter feito quando já não puder mais fazer?

Primeiro, que se registre que isso deveria ser proibido. A mãe das pessoas não deveria morrer. Nunca. Tá, quando as pessoas tivessem uns 70 anos, talvez. Ou só enquanto fossem muito pequenas para lembrar. Como a minha. Mas aí comete-se aberração mais cruel: morre-se a filha. Pergunte para a minha avó. Pergunte para a avó do meu irmão que desde do começo do século foi ao enterro das duas únicas filhas. Eu queria proteger meu irmão disso, queria poder protegê-lo e não posso. Eu queria ter tido tempo de agradecer a mão dele por ter cuidado de mim e da minha irmã por tanto tempo. Eu queria, e agora não dá mais tempo. E eu podia ter feito isso na última vez que a vi, e não fiz. Eu não sabia que lágrimas assim são tão amargas.

A última vez que a vi ela estava mais magra, mais bonita e parecia feliz. Era então evangélica, tinha encontrado a "paz do Senhor". Eu a vi, comprimentei e não sabia do que chama-la. Porque quando éramos crianças, eu e minha irmã, ela nos obrigava a chama-la de mãe, mesmo não sendo. Pouca gente perdou-a por isso. Não sei se minha irmã a perdoou por parte de uma infância incomum, pra dizer o mínimo. Eu soube que eu sim quando a vi no trem e usei de toda a minha habilidade de moldar o discurso ao empregar pronomes de tratamento. Porque eu vi a fragilidade daquela mulher que via o filho de tempos em tempos, pouco menos que uma vez por mês, que nunca mais ouviu do meu pai - e pai do filho dela - palavra alguma de simpatia, que não tinha contato ou proximidade alguma com as meninas que viu, em parte, crescer. Eu a perdoei porque percebi que ela também era parte de mim, e era humana, e tinha o direito de errar. Mas eu desci do trem, disse adeus mas não disse obrigado, prometendo a mim que o faria em breve. Mas sabendo que era a última vez. Foi há quase dois anos. Nunca mais a vi. E agora é nunca mais mesmo.

Então agora eu entendo porque chorar quando alguém morre. Por puro egoísmo, porque a morte atesta a incompetência dos que ainda vivem. E sabe o que mais me dói agora? Não ter fé, não acreditar mais em Deus, em espíritos, em reencarnação nem em coisa alguma. Porque se fosse há três ou quatro anos, bastaria uma vibração, um bom centro espírita e ela saberia que eu, de alguma forma, também a amava e que, de toda forma, a perdoava. Mas agora não. Agora eu não sei mais, e nada fará o que não foi feito. Pior, fica a responsabilidade e a consciência, maldita consciência, que muita gente ainda não morreu. Meu pai (se bem que ele não vai morrer nunca, então é mais fácil), meus irmãos (que também estão proibidos de morrer já que eu sou a mais velha e quem manda sou eu), meu... não. Ninguém mais vai morrer. Mas pode, sabe, e, sabe, eu sei que eu não vou conseguir dizer a eles o quanto eu os amo.

Porque mesmo que seja proibido pela minha lei, meu avô e minha avó vão morrer. E vão morrer em breve, eu sinto, porque toda vez que alguém fala o nome deles eu sinto um aperto no peito. E eu não vou conseguir dizer, eu sei, até os vivos atestam minha completa incompetência de admitir sentimento qualquer. Mas eu sinto, sabe, eu sinto, muita coisa, muito, mas muito, além do que eu expresso. Meu avô, por exemplo, quem tiver paciência lerá um texto meu lamentando não ter dito a ele algo que eu preciso dizer mas que jamais admitirei, porque isso requer a exumação de coisas que eu jamais desenterrarei. Coisas sobre as quais eu não falo e não falarei. Coisas cujas referências, nesse exato momento, são vazias, porque eu apaguei da minha memória, ainda que não conseguisse apagar o espaço onde elas estavam. Sinto não dizer. Sinto porque não sou tão forte, nem tão perfeita.

Mais: sou só. Só porque eu sorrio e ostento a face serena durante todo o processo. Só porque apenas minha irmã viu hoje meus olhos vermelhos e a face lavada (e só viu porque não fez barulho para abrir a porta da sala quando eu pensava que ela já estava dormindo). Só porque eu tenho certeza que sempre serei e é uma certeza mais forte que a da minha própria existência. Só porque não tem ninguém pra eu ligar, ninguém pra onde correr, ninguém que me vá me abraçar e realmente me consolar (ei, amigos, por favor, sem stress).

Ainda hoje eu lia um zine com um texto sobre velório. Ainda hoje eu planejava mais um post sobre o meu próprio velório. Ainda hoje eu falava que escreveria um texto sobre a morte não ser um mal. Hoje então eu concluo que algumas pessoas (como eu) talvez só tenham o pretinho básico como forma de demonstrar pesar. Hoje então eu concluo que será uma grande sorte estar morta no meu velório. Hoje então eu concluo que, pelo menos para os que ficam, a morte é útil. Mas faz pensar. E isso nem sempre é um bem.

::: posted by Romy Trinity at 20:50 Comments:



post de 07.11.05


EPÍGRAFES



Difícil dizer o que não poderia me servir de mote. O presente e o passado, o agora e o anteontem tão fortes e eu sem saber de qual falo primeiro porque os dois eu quero/ preciso registrar, materializar, para serem passíveis de uma memória eterna que não se deforma, a despeito da minha, que ainda que se lembre, esquece como era. Imagens que eu quero emoldurar, pôr num álbum pra poder tirar mais fotos. Eu gosto de cinema porque eu sei que aquilo, na verdade, não é movimento, é uma porção de fotos. Eu gosto de cinema pela imagem parada que nunca deixou de se mover. Eu gosto de cinema porque ali a verdade não precisa importar, se se move ou não, não importa, desde que me alcance.

Eu. Eu gosto de eu, de ser eu, de falar de mim, de ter sido tão esperta a ponto de criar um lugar onde eu pudesse eternamente falar de mim. Um lugar onde dito que sou egocêntrica ninguém me contradiz. Mesmo sabendo que mais de cinco milhões de pessoas tiveram idéia parecida, blog falando de mim, por enquanto, só o meu mesmo. Hoje eu tava pensando como é legal ser quem eu sou hoje, como foi bom o tempo ter passado e eu chegar a ser quem eu quero ser. Finalmente eu posso crescer a partir de mim e não de um ideal que não se encaixa, que não me comporta. É como voltar a mim depois de um bom tempo. Na quarta série eu era eu e só. Acho que foi ali que tive consciência de ser e que a felicidade simples, a felicidade de não saber, não precisar saber, não querer saber, acabou. Meu amigo Jardineiro estava certo quando disse que só quando criança. Na quinta série eu queria ser a Camila. Loira, perfeita, simpática, a queridinha de todas. Na sétima série eu queria ser a Angela. Inteligente, social, a amiga de todos, alunos e professores. Na oitava série eu queria que todos pegassem fogo já que eu ia pra USP e todos riram porque eu tinha esquecido do 2º grau. Na 8ª série eu queria não ser. No 2º grau eu comecei a me procurar, a decidir e a fazer a minha própria vida. No 4º ano, eu me construía. Sexta-Feira passada, eu me achei.

Já disse isso: minha vida é feita de imagens. Como falávamos eu e a Scully, minha vida é uma série da Warner, quase Gilmore Girl, só que eu não tenho mãe e não quero ser a Rory, porque ela é meio boba, embora, muitas vezes seja muito, mas muito, parecida comigo. A imagem de sexta, que ficou gravada em mim, além de tantas outras, é a de todos ali, música ao fundo, tendo, por instantes, consciência do que representava. Consciência escrita nas palavras de Herr Demente. Um momento solene, sublime. Tudo o mais, apenas consequência. Porque então eu pude entender, embora não estivesse em condições etílicas de enunciar isso, que finalmente podia ser eu, sabe, eu REALMENTE não precisava provar nada pra ninguém. REALMENTE não precisava mais ser a boa moça, simplesmente porque eu não era a boa moça, EU NÃO SOU, NEM QUERO SER, BOAZINHA. Na verdade mesmo, eu não me importo com todas as pessoas do planeta. Me importo sim com algumas, mas, como alguém percebeu (infelizmente não da melhor maneira), só na medida pra evitar o meu próprio sofrimento. É uma pena? Não sei, mas é um alívio descobrir isso.

E passei tanto tempo pensando como eu começaria o post. Finda a festa, eu já pensava no post (blogueiro é foda). Pensei num título incrível, que sumiu quando eu acordei e ligaram a luz de um mundo barulhento. Ontem eu pensava no que escreveria. Hoje eu pensava que precisava escrever porque eu gosto de passar um traço ao final da anotação de cada aula, pra saber que aquela ficha acabou e que já podia começar outra. Mas já sabia que muita coisa mais tinha se somado ao que precisa ser escrito. Não eram os motivos que se multiplicavam, era minha consciência que se expandia, meu pensar infindável que não se calava, meu coração que nunca sossega. Eu preciso estar apaixonada e já não sei mais amar outra pessoa. Tem muita coisa em mim precisando virar palavra pra ser expelida pelos meus dedos. Eu fagocito realidade. O real entra, eu contorno, escrevo e coloco fora como ilusão. A ilusão não é o que está em mim ou no mundo: é o que eu consigo passar sobre mim para o mundo.

Lembro agora que outro dia me sentia mal por ter feito a coisa certa. E também me sentira mal por ter feito a coisa errada. E de pensar no certo e no errado, acabei pensando que também o que é verdadeiro e falso não existe realmente, é só perspectiva. Existe o que eu sinto. Só que ambos existem assim, subjetivamente. No mundo, as coisas são sempre certas e sempre verdadeiras. É no discurso que elas se corrompem. Aí residia minha culpa: ao querer fazer do discurso acordo e compreensão eu pego todo o peso pra mim. Não pedindo compreensão, nem acordo, eu me livro da verdade, do certo, do falso e do errado, pra carregar o peso de ser incompreendida, mas esse peso eu peso na balança sempre que vou a farmácia. Esse peso já está em mim e eu já sei como carrega-lo. Acreditem ou não, não me importa mais. Tudo o que eu digo é verdade. Pra mim, naquela hora é sinceramente verdade. Acredite vc ou não, eu sou "a farsa mais verdadeira que existe porque passo por falso o que de mais verdadeiro existe" em mim. (definição de um amigo virtual)

Semanas atrás eu achei que tinha me curado. Hoje eu ouvi uma certa música, vi uma certa foto e meu corpo todo se comportou como sempre tinha se comportado. O coração dispara, a respiração quase pára, um arrepio percorre a espinha. Mas algo mudou sim: não há mais uma euforia asfixiante, nem uma dor inexplicável. O real não importa mais porque fato é fato. E fato é o que eu sinto. E sinto que nunca minha persona vai se livrar de certo personagem. Eu sei que é falso mas de que adianta saber algo assim? Nada, porque se ele se aproxima nada mais importa. E quando ele se afasta não importa mais. Seria a mesma história de antes se eu fosse a mesma de antes. Só que eu não sou, se cavo o abismo com meus pés é, sinceramente, sem querer. Apaixonada sempre? Sim. Mas isso não vai me impedir de viver.

(Pra que fim e continuidade num álbum de fotografias?)

::: posted by Romy Trinity at 20:46 Comments:






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